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Deus, a medida de todas as coisas (Colossenses 1:9-17)

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Protágoras, um antigo filósofo grego, foi o autor de uma frase que resume, com notável perfeição, o espírito subjetivista e relativista da modernidade: “O homem é a medida de todas as coisas: das coisas que são, enquanto são; das coisas que não são, enquanto não são”. Quis o sofista dar a entender, por meio de sua afirmação, que nada – fosse a cultura, a lei, a moral ou a religião – devia ter um valor absoluto, visto que a verdade pudesse ser convenientemente construída e desconstruída, conforme as tendências e preferências predominantes em certa sociedade, em certa cultura ou em certo período. A autonomia da qual fala Protágoras sempre foi algo a que aspiramos. Odiamos a ideia de que existam verdades e valores absolutos aos quais precisemos nos conformar. Queremos, antes, definir o que é certo e verdadeiro, para que nada possa nos impedir de satisfazer o nosso apetite insaciável por prazer, e não queremos que algo ou alguém determine por nós quais são os objetos com os quais é lícito que nos comprazamos. Embora, desde Adão, esse tenha sido o espírito de cada indivíduo, foi somente no século XVIII, com o Iluminismo, que o ideal humano de emancipação ganhou a forma de ideologia e se tornou o projeto de toda a sociedade ocidental. Deixamos de lutar isoladamente e passamos a combater como um exército, em defesa da cultura antropocêntrica que construímos, na qual “o homem é a medida de todas as coisas”. Divinizamo-nos a nós mesmos e outorgamo-nos o direito de definir o que é certo e o que é errado, tornando a nossa própria vontade a régua com a qual medimos o mundo. Contudo, com base nas palavras de Paulo, buscaremos entender que nós, seres humanos, não somos a medida de todas as coisas, mas que Cristo o é. Não somos filhos do Iluminismo, mas filhos de Deus. Não somos governados por uma subjetivade soberana, mas por um Senhor soberano.

Paulo, depois de relatar aos colossenses que a fé e o amor que eles conservavam lhe fossem motivos de gratidão a Deus, começou a expor, a partir do v. 9, as razões que o levavam a orar em prol daqueles cristãos. De maneira bastante significativa, o que o apóstolo pediu a Deus foi que seus leitores estivessem “cheios do conhecimento da sua vontade [isto é, a vontade do próprio Deus]”, e a finalidade desse pedido era que os colossenses pudessem “andar dignamente diante do Senhor, agradando-­lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus, corroborados em toda a fortaleza, segundo a força da sua glória”. Reparemos que a medida de tudo o que Paulo pediu a Deus em prol dos crentes de Colossos era o próprio Deus. Ele não incitou os seus leitores a darem livre curso às suas vontades, mas rogou a Deus que os enchesse com o conhecimento da sua vontade. Portanto, não é com base naquilo que queremos que devemos agir, mas com base no que Deus quer, visto que a vontade dele, no linguajar do próprio Paulo, seja “boa, agradável e perfeita” (Rm 12:2). Se quisermos o que o Senhor quer, poderemos andar dignamente diante dele (Deus é o parâmetro da nossa conduta), agradar-lhe em tudo (o prazer de Deus é o que deve nos mover), frutificar em toda boa obra (Deus define o que é bom) e crescer no conhecimento dele (Deus é a realidade objetiva que devemos conhecer).

Esse mesmo Deus que é a medida de todas as coisas e que rege o universo com base somente em sua própria vontade não é impassível ou apático; tanto que, no v. 12, Paulo o chama de Pai, e isso é um índice de intimidade, afeto e simpatia. Nosso Pai “nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz”, “ele nos tirou da potestade das trevas e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor”. O Iluminismo foi assim denominado porque visava lançar luz sobre as trevas da Idade Média; mas, ao definir que tudo devesse ser avaliado pelos óculos da razão humana, tornou ainda mais espessa a escuridão na qual nos encontrávamos, à medida que inflamou ainda mais o nosso infundado orgulho e nos cegou por completo, fazendo-nos acreditar que éramos ilustres, quando, na verdade, assim como os laodicenses, vizinhos dos crentes de Colossos, éramos desgraçados, e miseráveis, e pobres, e cegos, e nus (Cf. Ap 3:17).

Deus, porém, nos resgatou desse reino tenebroso ao qual pertencíamos e nos transportou para o Reino do seu Filho amado. Foi Deus que nos iluminou, foi ele que nos tirou da escuridão e nos levou para a luz. O nosso resgate de um reino para o outro – isto é, do reino das trevas para o Reino da luz – foi operado mediante o pagamento da nossa alforria, e o preço foi o sangue de Jesus. Paulo, no v. 14, explica o significado da alegoria que estava usando: a nossa libertação (redenção) do reino das trevas mediante o pagamento de um resgate significa que, através da obra expiatória de Cristo em nosso favor, nossos pecados foram perdoados, e isso nos concedeu sermos libertos da pena que, por conta das nossas iniquidades, merecíamos e, por outro lado, podermos gozar da vida de liberdade que Deus reserva para os seus.

Se, portanto, formos conduzidos pelas aspirações modernas por autonomia – as quais, desde o Iluminismo, vêm ganhando mais e mais força –, a paixão pelo nosso ego nos cegará, e permaneceremos sempre presos ao reino das trevas. Que Deus abra os nossos olhos, a fim de que vejamos “a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (I Co 4:4)! Cristo é a imagem de Deus (v. 15)! Se o pudermos ver, teremos vida, seremos libertados do reino tenebroso ao qual pertencemos, seremos transportados para um reino de luz. Olhemos para Cristo e sejamos resgatados!

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